Uma coisa que sempre foi muito latente em mim é a minha compaixão pelo sofrimento alheio. Lembro-me que quando pequena minha mãe se irritava porque se eu visse um mendigo na rua e ela não parasse para ajudar eu chorava e fazia com que ela se sentisse culpada ao ponto de voltar todo o caminho e ajudar. Sempre fui incapaz de negar ajuda a quem quer que fosse e se alguma vez tive que dizer, “Desculpa, não posso ajudar.” |Foi porque os adultos responsáveis mandaram. Eu chegava ao ponto de na época da escola, quando alguém me pedia esmola e eu só tinha a passagem de volta pra casa eu a entregava e voltava andando. Sonhava em ser missionária na África. Em ser professora e cuidar das pessoas. Não estou dizendo que eu era uma pessoa maravilhosa, não sempre fui geniosa. Lembro-me do meu avô dizendo “Odeio quando essa menina grita para os irmãos saírem de perto o dia inteiro!” E se mexessem nas minhas coisas o tapa rolava.
Também era correta em relação ao que julgava ser certo e errado. Lembro que quando tinha cinco anos, toda a turma parou de falar com a Verinha, porque ela era chatinha e tinha os pais separados. Eu me recusei a parar de falar e eles todos se voltaram contra mim, inclusive a Verinha. Dentro deste grupo havia um menino pelo qual eu era apaixonada. Fiquei de coração partido. Passava meus recreios sozinha no escorrega. Nessa época estudava no Americano Batista em Recife. Uma escola enorme e religiosa. Lembro de uma tarde Emílio e mais 3 meninos terem me cercado no escorrega. “Desce que você apanha!” Aos cinco anos ser confrontada por 3 meninos dessa forma. Olhei ao redor e as tias estava la longe. Nem percebiam o que se passava. “Se gritar apanha!” Eu não gritei, mas tampouco desci. Fiquei lá sentada congelada ate que não me lembro como alguém gritou e eles saíram correndo. Fiquei com muita mágoa de Emílio. Não sei se no mesmo dia ou algum tempo depois as tias pediram que fizéssemos uma roda no pátio. Ele estava bem em frente a mim e eu continuava magoada. Eu levava bolo pro garoto todo dia! (Risos) eu gostava dele e ele manda todo mundo parar de falar comigo e me bater no escorrega? Enchi as mãos de terra enfiei dentro dos bolsos e quando estava todo mundo entretido cantando uma cantiga de roda, atravessei o pátio e joguei areia na cara dele bem na frente das tias. Ele chorou feito uma menininha!Tadinho, aos cinco anos todos choramos não é verdade? EU só contava os meus porquês para a minha mãe. “Stella por que você fez isso minha filha?” E ela me defendia. Dizia que era errado e que Papai do Céu não gostava de vinganças. Sentia remorso depois. Emílio ficou com medo de mim, mas não parava de me olhar dali por diante.
No ginásio, mais uma vez um episódio parecido aconteceu. As meninas pararam de falar com uma das garotas por uma semana, eu inclusive. Mas aquilo foi me incomodando, a “brincadeira” era para ter durado um dia. Mas se estendeu ao outro e depois as ofensas começaram. “Quatro olhos”, “vara pau”, “espanador de teto” e aquilo não me parecia engraçado. Até o momento em que eu virei para trás e disse, “Aninha senta aqui do meu lado.” Imediatamente a líder da turma proibiu que todos parassem de falar comigo até eu pedir desculpas. O que não aconteceu nunca, em nenhum dos 3 anos em que eu estudei ali. A aninha voltou a fazer parte do grupo e também parou de falar comigo, mas quando as outras não estavam olhando ela sorria para mim.
O que é isso que eu tenho? Pergunto. É orgulho? Vaidade? Eu comi o pão que o diabo amassou com aquelas menina no ginásio. Nenhuma delas teve um futuro legal. A última de quem tive noticias, a CDF, a que passava cola para todo mundo, engravidou dua vezes de homens diferentes, estava namorando o trocador de ônibus de uma linha perto da escola e tinha virado manicure. Pediu emprego no salão da minha cunhada uma vez, ficou lá um tempo e se referia a mim como uma amiga. Como se aquele intervalo de três anos em que fomos as piores inimigas não houvesse existido. Fico triste por ela, pelos sonhos destruídos. Cada um é responsável pelas suas escolhas. E essas figuras povoam os meus pensamentos. Estão lá recolhidas no fundo do subconsciente. São meus fantasma particulares e me serviram de treinamento.
Sempre fui muito severa comigo mesma. Inflexível em meu julgamento. Tenho sempre desculpas formuladas para a maldade dos outro mas quando é comigo mesma sou a primeira a atirar pedras. Agora olho para o meu filho com oito anos, e me imagino aos cinco enfrentando meus amigos de sala para defender alguém mais fraco do que eu depois passando por aquela injustiça de todos virarem a costas inclusiva a menina que eu defendi e continuar de cabeça em pé. Eu era muito corajosa. EU era de tirar o chapéu.

Nenhum comentário:
Postar um comentário