sábado, 10 de dezembro de 2011

Vão-se os livros ficam as lágrimas...


          Claudio saiu de casa em outubro. Uma semana depois do níver de Lucas. Ele foi embora no dia do incêndio e só reapareceu de novo  em janeiro. Foram 3 meses em que eu não recebi um centavo nem dele nem do meu emprego que havia perdido em outubro. Eu telefonava e ele não respondia. Aos poucos os vizinho começaram a retomar suas vidas e esquecer o que havia acontecido então eu estava 100% sozinha de novo. Cortaram primeiro o telefone, depois a luz e o gás. Eu não sabia o que fazer nem a quem recorrer. Meu  pai falava pra eu dar entrada na pensão. "Vai na marinha que você resolve isso..." é o que todo mundo fala. As pessoas esquecem da burocracia. Sim uma vez que você dá entrada na pensão e o juiz determina a marinha deconta da folha do militar todo primeiro dia útil. So que a justiça é lenta. Eu só recebi minha primeira pensão em maio 7 meses depois que ele havia saído de casa. E como eu falei, esta memória pertence ao mês de janeiro.
                Uma tarde minha ex-empregada, Solange me liga. "Como você esta?"; Ela havia virado uma amiga com a qual aprendi a contar. "Péssima!" respondi. Naquele memso dia ela apareceu lá em casa com o chefe da portaria do prédio. "Stella o Sr. Francico vai quebrar um galho pra você. Vamos la embaixo fazer umas compras pra você e Lucas no cartão dele e você paga quando a pensão sair." Senti uma pontada de humihação quebrar o que restava do meu orgulho mas aceitei agradecida. Não tinha nada na despensa naquele dia... Descemos, fizemos compras. Lucas estava feliz. Eu aliviada. Além das compras Sr. Francisco também pagou a luz e o gás. Minha divida com ele somou 800 reais.
                Na fila do mercado, encontrei uma conhecida, dona de um pequeno brechó na esquina da minha casa. Conversando, a minha empregada expôs a situação para ela. E ela me informou que se eu tivesse algo pra vender poderia levar lá. Enquanto as compras do Sr. Francisco duraram eu não voltei a pensar no asunto, mas quando tudo foi terminando (terminou rápido)comecei a separar o que poderia ser vendido ou não. Brinquedos, vestidos, sapatos se transforamaram em frango arroz, feijão, biscoito e leite. Até o dia em que não havia mais nada a ser vendido. A dona do brecho então, me pediu pra ajuda-la com a arrumação do local por 20 reais por semana. Entrei no deposito que ficava nos fundos e vi umas porção de livros. Eram livros de direito, enciclópedias, dicionários, pilhas e pilhas de revistas da MARVEL. Então perguntei porque ela não colocava tudo aquilo a venda. "Iso é lixo minha filha! Quem é que compra livro?" Quem mehor para vender livros do que uma "bookworm" como eu? Ela falou que seria perda de tempo, mas que se eu quizesse poderia tentar vende-los e que os livros agora eram meus. No dia seguinte lá estava eu pela manhã bem cedo. Deixei Lucas na escola e montei a barraca na calçada do brechó. Bem na esquina da Rua Getúlio com a Cirne Maia, no Méier. Na primeira manhã vendi 80 reais em livros. Pegava Lucas na escola almoçava num restaurante a quilo baratinho e a tarde voltava pra vender mais. Lucas ficava comigo sentado em sua cadeirinha ou brincando com seu cavalo de pau. Quando chegava freguês ele colocava os livros na sacola.
                Aos poucos só melhores exemplares foram saindo e os outros ficando encalhados então assaltei minha própria biblioteca e ai, eu vendia e chorava. Um exemplar de capa dura com texto original de Don Quijote de La Mancha foi vendido de quarenta reais por vinte e cinco a um corretor de imóveis que pechinchou e quase não leva. Só que eu não tinha vendido nada aquele dia e o meu estomago vazio falou mais alto.Fernando Pessoa, Manoel Bandeira, Vinicius de Moraes, Érico Vérissimo, Minhas gramaticas e dicionários. Rotterdam, comédias gregas, tragédias gregas todos se foram! E claro, os xodózinhos nerds né? Minha coleção completa de Senhor dos Anéis, vendida para o filho do sapateiro. Harry Potter? Lucas e eu choramos. Mas minha coleção das Crônicas de Nárnia com os desnhos originais de quando eu era criança doeu mais que todos! Também pus a venda os livros de Cláudio de marinha. Ali descobri uma outra face dele que com certeza teria me feito dizer não ao pedido de casamento. Seus ivros eram todos muito bem encapados e para poder coloca-los a venda tive que desemcapa-los um a um e encontrei aguns exemplares de história da arte naval que pertenciam a Escola Naval do Rio de Janeiro. Ele, provavelmente havia levado e encapado para que o símbolo da Biblioteca Naval não ficasse visivel.
                Uma coisa que aprendi ao longo desta jornada é que quando Deus não me quer mais em um determinado lugar as coisas começam a apertar. Quando viu que eu estava lucrando com os livros que pensou ser lixo, a dona do brechó começou a me importunar ao ponto de não ser mais viável a minha permanencia alí. Antes porem, ela veio ate minha casa e levou embora todos os móveis mais ou menos queimados que me restavam, pela bagatela de 150 reais. Este trabalho porém me ajudou a atravessar os quatro meses que me restavam para que a pensão do meu ex-marido finalmente caisse em minha conta bancária.

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