segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Sobre cura e jardins...

Mamãe tem estado em meus pensamentos com mais frequencia do que o normal, ultimamente. Ela morreu em 1988. Já faz muito tempo... Eu estava com 10. Faria 11 em fevereiro. Não pensava nela há muito tempo, mas  um amigo tem desabafado comigo sobre um ente-querido que esta com cancer avançado. E no drama dele tenho revivido o meu.
Não quero falar sobre ela para não faze-lo perder a fé. São duas situações distintas. Pessoas separadas por vinte anos mas unidas pela mesma doença.
Mamãe teve câncer no seio esquerdo e mais tarde no pulmão.
Lutou durante anos e faleceu exausta. Ela buscou na igreja, a cura divina. Implorou por milagre. E testemunhar esta busca em vão da minha mãe me fez criar uma fé antagonica... por muitos anos a cultivei. Finalmente entendi que o que ela buscava era uma resposta exclusiva e direta "Vera eu desejo te curar seja curada!" Quando na verdade a revelação da vontade divina foi dada a humanidade quando Cristo levou sobre sim nossas enfermidades. Ela não precisava de uma palavra especifica ela já possuía a promessa global.

Mas de qualquer forma não é sobre isso que quero falar... Quero contar aqui uma experiencia que minha mãe relatou só a mim, pouco antes de morrer.

Mamãe me contou que teve um sonho muito real. Que acordou sobresaltada como se o mundo sobrenatural tivesse invadido o seu quarto. Ela estava em um jardim majestoso. Toda vestida de branco. Os cabelos, que havia perdido com as sessões de quimioterapia, estavam de volta, longos caindo pelos ombros. O hematoma do braço devido as muitas picadas de agulha, havia sumido e seu seio esquerdo estava de volta. Ela se sentiu feliz e sadia como nunca antes havia se sentido. Então uma pomba branca veio voando em sua direção, toda iluminada e disse: "Vera, você me buscou por tanto tempo e agora vai me ver face a face."

Eu tinha dez anos. Ela me contou esse sonho e a mais ninguem.
-Mãe você sabe o que isso quer dizer né? - perguntei com medo de que ela se ofendesse.
- O que quer dizer Stella? -  respondeu-me com outra pergunta.
- Que você vai morrer.
- Sim. Eu vou morrer.
- Você está com medo? - perguntei apreensiva não com o fato dela morrer mas não queria que estivesse nervosa.
- Medo não... Só um friozinho na barriga.

Foi nossa última conversa verdadeira. Ela faleceu algumas semanas depois.

E eu fico pensando no meu amigo e na familia dele. Sei que Deus quer curar incondicionalmente. Só que algumas vezes a hora chega. E eu queria com todo meu coração, e toda a minha força, com todo meu entendimento que Deus desse este conforto a familia dele. Porque as coisas ficam tão mais fáceis quando ha a certeza de um reencontro. Quando sabemos que o ser que amamos é a alma que habita nesta caixa finita e que quando chega a hora ela se liberta e vai para um lugar melhor.

                                                         Mamãe e eu (1 mês e meio.)


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